quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Boa Morte?



De origem grega, a palavra eutanásia, em sentido literal significa “boa morte” ou “morte sem dor”.  Mas será mesmo?

A eutanásia, é definida como o procedimento pelo qual uma pessoa em estado terminal, ou portadora de doença incurável que esteja em sofrimento constante, seja auxiliada a morrer rapidamente e sem dor. No Brasil a legislação tipifica a conduta como crime de homicídio.

No mundo pelo menos cinco países permitem a eutanásia. A Holanda foi a pioneira e desde 2002 pessoas com total consciência, portadoras de doenças incuráveis e que padecem com dores consideradas insuportáveis, podem solicitar ajuda para interromper a própria vida. Logo depois, no mesmo ano, a Bélgica inovou e permitiu também que pessoas saudáveis pudessem deixar registrado o desejo de morrer, para o caso de que eventual doença as deixassem inconscientes.

Na Suíça e na Alemanha a eutanásia é proibida, contudo, o suicídio assistido é permitido, ou seja, a pessoa deve livremente realizar os procedimentos para sua morte sem ajuda direta de terceiro. A Suíça possui uma legislação ainda mais liberal que da Alemanha, permitindo que entidades orientem e ofereçam estrutura para a realização do mórbido procedimento, tornando o país famoso no mundo pelo “turismo da morte”. Pessoas de diversas nacionalidades viajam para a Suíça com o fim último de ceifarem a própria vida. Obviamente que o processo é oneroso e os pacientes desembolsam altas somas para poderem ter acesso ao procedimento fúnebre.

Em alguns estados Norte-americanos a eutanásia, quando possível a manifestação da vontade particular, é permitida.

Também não é raro nos depararmos com muitos casos de pessoas que recorrem à Justiça pleiteando o direito de desligarem os aparelhos que mantêm vivo um ente da família. Muitas vezes a solicitação é atendida. Nestes casos, acredito que não se trata mais do direito de morrer, mas sim, do direito de matar.

Inúmeras são as situações de pessoas que padecem de mal incurável e mesmo que em casos extremos, imóveis e prisioneiras dentro do corpo atrofiado e inerte, conseguem manifestar o desejo de viver, mesmo que somente através de pequenos movimentos do globo ocular. É comum a pessoa estar consciente, com a inteligência totalmente preservada. Há casos em que nenhum tipo de manifestação física seja possível. Imagine a sensação horrenda que alguém possa sentir quando escuta uma pessoa querida decidir que é chegada a hora de morrer sem poder fazer nada a respeito. Importante destacar que, pela fé e esperança, virtudes presentes na maioria dos seres humanos, em alguns casos, pacientes que estavam com os dias contados despertam e recobram a vida.

É relevante mencionar ainda, que na Alemanha nazista a eutanásia, mesmo em casos sem a anuência do paciente, foi responsável pela morte de milhares de pessoas consideradas incuravelmente doentes, bastando para tanto um exame médico neste sentido. Nessa época pessoas idosas, deficientes físicos e doentes mentais eram arrancadas de suas famílias e assassinadas. Essas pessoas eram consideradas improdutivas, não poderiam trabalhar e contribuir para o Regime. Defendia-se o dever de exterminar aqueles cujas vidas eram consideradas "indignas de serem vividas”.

Na realidade, as pessoas doentes ou com alguma deficiência precisam ser respeitadas e merecem tratamento digno. Devem ser amparadas para que possam ter uma vida com a qualidade tão normal quanto for possível.

Acredito que todo o esforço em defesa da vida humana deva ser empregado, desde a concepção até a morte natural. A vida é uma dádiva. Permitir a eutanásia ou o suicídio assistido é extremamente nocivo e perigoso, não só porque fere o direito natural à vida, mas também porque é impossível atestar a idoneidade moral de um carrasco.

Jeandré C. Castelon
Advogado e membro da Pastoral Família


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Nos Jornais: Umuarama Ilustrado / Gazeta de Toledo / Jornal o Paraná

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A alegria prolonga os dias



Quando ainda era estudante no segundo grau, hoje ensino médio, minha professora de história, que lamentavelmente não me recordo o nome, ensinou-me que na época da escravidão no Brasil (1530-1888), era comum os escravos morrerem de “banzo”.

A morte era a última e mais grave consequência causada pelo terrível processo psicológico sofrido pelos escravos, transportados como mercadoria dentro do porão dos navios, de um continente a outro em condições degradantes, e os que sobreviviam à torturante viagem, não encontravam melhor sorte quando forçosamente desembarcavam na nova pátria. No início o banzo se caracterizava por forte excitação, seguido de ímpetos de destruição, e depois de uma nostalgia e tristeza profundas, podendo culminar com a morte.

Embora eu não seja capaz de afirmar com absoluta certeza, possivelmente esses foram os primeiros casos de morte causadas por intensa tristeza de que temos registro aqui no Brasil.

A tristeza encurta nossos dias, enquanto a alegria os prolonga. Essa máxima faz parte do saber humano desde muito antes da Era Cristã. No Livro do Eclesiástico (30, 22-25), escrito aproximadamente 200 anos antes do nascimento de Jesus, encontra-se importante recomendação, que alerta sobre os perigos causados pelo sentimento de tristeza e enaltece a alegria: “Não entregues tua alma à tristeza, não atormentes a ti mesmo em teus pensamentos. A alegria do coração é a vida do homem, e um inesgotável tesouro de santidade. A alegria do homem torna mais longa a sua vida. Tem compaixão de tua alma, torna-te agradável a Deus, e sê firme; concentra teu coração na santidade, e afasta a tristeza para longe de ti, pois a tristeza matou a muitos, e não há nela utilidade alguma.”

São Paulo quando escreve aos Tessalonicenses (5, 16-18) exorta à alegria. Pede que todos estejam sempre alegres e permaneçam em oração. Pede também que haja o que houver, sejamos sempre agradecidos a Deus. A alegria deve nortear a vida do cristão, mesmo que situações adversas tornem isso mais difícil. É claro que em alguns momentos da vida passaremos por circunstâncias de grande aflição, de angustia, de amargura, ou seja, momentos carregados de intenso sofrimento, situações que precisarão ser enfrentadas, suportadas e principalmente superadas. Faz parte da vida combater o bom combate, dia após dia, dando um passo de cada vez.

Acredito que até mesmo para ser feliz seja indispensável algum esforço, que deverá ser demandado durante toda a peregrinação terrena em busca da verdadeira alegria. Atualmente quantas pessoas sofrem com a depressão, que em casos extremos assim como o banzo, também pode levar à morte. Na vida há muitos obstáculos para a felicidade, mas nenhum deles é instransponível. Seguramente o que mais atrapalha é quando a pessoa condiciona sua alegria àquilo que ela não tem. A solução para superar a tristeza é encontrar a justa medida, e ser alegre com aquilo que se tem, na circunstância em que cada um se encontre, sem que isso signifique abandonar os sonhos e o anseio por melhores condições de vida.

Por maior que seja a dificuldade pela qual você possa estar passando, não desanime, com o tempo toda ferida se cicatriza, busque a alegria, não entregue sua vida à tristeza, seja feliz, você e sua família merecem.

Jeandré C. Castelon

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No Jornal: Jornal O Paraná, Gazeta de Toledo

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A importância do protagonismo do leigo na vida da Igreja




“[...] os leigos, dado que são participantes do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, têm um papel próprio a desempenhar na missão do inteiro Povo de Deus, na Igreja e no mundo. Exercem, com efeito, apostolado com a sua ação para evangelizar e santificar os homens e para impregnar e aperfeiçoar a ordem temporal com o espírito do Evangelho; deste modo, a sua atividade nesta ordem dá claro testemunho de Cristo e contribui para a salvação dos homens. E sendo próprio do estado dos leigos viver no meio do mundo e das ocupações seculares, eles são chamados por Deus para, cheios de fervor cristão, exercerem como fermento o seu apostolado no meio do mundo.” (Decreto Apostolicam Actuositatem, 2).

O leigo, fiel de Cristo, ou simplesmente cristão, não consagrado a vida sacerdotal ou religiosa, divide com o clero, papel fundamental de semear o Evangelho por todo o mundo. O leigo, inserido em cada um dos setores da sociedade, é desafiado a ser luz do mundo e sal da terra em todos os locais onde estiver, não só dentro do seio da Igreja.

Todo cristão desempenha papel de extrema relevância e importância. Assim, surgem por consequência grandes responsabilidades. Ideologias particulares e mundanas precisam ser deixadas de lado, em defesa da vida, da verdade e do bem comum.

Para lidar com as adversidades e desafios que por certo encontrará do decorrer da longa caminhada na estrada trilhada por Jesus Cristo, é necessário que o leigo construa sua casa sobre a rocha, como revela o Evangelho de Mateus (7, 24-27):

“Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha. Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que construiu sua casa na areia. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela caiu e grande foi a sua ruína.”

É Deus a rocha da salvação (Salmo 94, 1), e para melhor estar ligado a ele, aplicando-se cada vez mais no exercício das virtudes da fé, esperança e caridade, faz-se necessária a oração diária e leitura da Bíblia. Espiritualmente alimentado e forte, o fiel de Cristo suportará com ânimo renovado os percalços que inevitavelmente encontrará ao longo do caminho. 

Acredito que, primeiro, o protagonismo do leigo deve começar dentro de sua casa. Quando um lar é verdadeira Igreja Doméstica, espaço de fé e oração, as dificuldades para o fiel cristão ser Igreja fora dos ambientes eclesial e doméstico são suavizadas.

Todo batizado precisa ser de fato, sal da terra e luz das nações. Guiado pelo Espírito Santo, o leigo precisa contribuir para a evangelização, principalmente através de um frutuoso testemunho de vida.

Há distinção entre o sacerdócio ministerial recebido pelo Sacramento da Ordem, reservado aos Presbíteros e Bispos, e o sacerdócio comum do leigo, múnus recebido pelo Batismo. Entretanto, mesmo que cada um exerça diferentes funções, todos os membros da Igreja fazem parte de um só corpo: Jesus Cristo. É de extrema importância que o leigo “sinta-se Igreja” e contribua para a salvação de todo o povo de Deus.


Jeandré C. Castelon

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No Jornal: Gazeta de Toledo

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Ágape: amor, caridade, benevolência





               A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, por si mesmo, e a nosso próximo como a nós mesmos, por amor de Deus, assim apregoa o parágrafo 1822 do Catecismo da Igreja Católica. Segundo o mesmo Catecismo, parágrafo 1813, as virtudes teologais, são infundidas por Deus na alma dos fiéis, fundamentando, animando e caracterizando o agir moral do cristão. Há três virtudes teologias: fé, esperança e caridade.

Na I Carta de São Pedro (4,8), o apóstolo nos aconselha a prática da caridade: “Antes de tudo, mantende entre vós uma ardente caridade, porque a caridade cobre a multidão dos pecados”. Texto semelhante pode ser encontrado no capítulo 10, versículo 12, do Livro dos Provérbios.

São Paulo, quando escreve a I Carta aos coríntios (13, 1-13) utiliza o termo “ágape”, que traduzido do grego significa: amor, caridade, benevolência. Ágape é o amor afetivo, isento de conotação sexual, de segundas intenções, de malícia, de interesses pessoais. É a forma de amor mais inclusiva e abrangente possível. São Paulo, no referido texto, destaca que entre as virtudes teologais: fé, esperança e caridade; a última é superior às outras duas.

A Epístola de São Tiago, no capítulo 4, justifica a fé pelas obras. O autor é célebre ao afirmar que “a fé sem obras é morta”. Portanto, muitos são os exemplos bíblicos que aconselham a realização de obras de caridade.

No mundo, cerca de 1,3 bilhão de pessoas são católicas, e a Igreja a qual pertencem, segue dando exemplo, como a maior instituição caritativa do planeta. Segundo o “Anuário Estatístico da Igreja” publicado pela Agência Fides, a Igreja Católica administra no mundo 115.352 institutos beneficentes e assistenciais, sem contar que majoritariamente esses institutos se subdividem em inumeráveis sedes.

Presente em todos os continentes, a Igreja Católica mantém na Ásia: 1.076 hospitais; 3.400 dispensários, que são locais para tratamento de doentes com dificuldades econômicas, onde se oferece atendimento médico e medicamentos gratuitos; 330 leprosários; 1.685 asilos; 3.900 orfanatos; 2.960 jardins de infância.  Na África: 964 hospitais; 5.000 dispensários; 260 leprosários; 650 asilos; 800 orfanatos; 2.000 jardins de infância.  Na América: 1.900 hospitais; 5.400 dispensários; 50 leprosários; 3.700 asilos; 2.500 orfanatos; 4.200 jardins de infância. Na Oceania: 170 hospitais; 180 dispensários; 1 leprosário; 360 asilos; 60 orfanatos; 90 jardins de infância. Na Europa: 1.230 hospitais; 2.450 dispensários; 4 Leprosários; 7.970 asilos; 2.370 jardins de infância.

Não há dúvidas de que a Igreja Católica é exemplo para o mundo em matéria de caridade, na realização de obras que contribuem para com toda a raça humana, inclusive atendendo e prestando socorro a pessoas que não pertencem à mesma Igreja. É claro que muitos membros da Igreja se equivocam, são sujeitos falíveis, afinal são seres humanos, repletos de imperfeições, assim como qualquer pessoa, independentemente de pertencer ou não a uma denominação religiosas. Executa-se para os católicos, a infalibilidade do Papa em matéria de fé e moral, porque sobre tais temas, a manifestação do Pontífice é isenta de erro.

Acredito que, quando no dia do definitivo juízo, as boas obras que tenhamos praticado durante a vida darão testemunho a nosso favor. Contará de maneira positiva até mesmo o copo de água fresca dado a um pequenino, como fora dito por Jesus no evangelho de Mateus (10,42). Pois está escrito que as obras seguem os bem-aventurados que habitam com o Senhor, e descansam dos seus trabalhos (Ap. 14, 13).

Jeandré C. Castelon
Advogado e membro da Pastoral Familiar

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No Jornal: Gazeta de Toledo

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Perdoar o pecador é diferente de aprovar o pecado: o Papa Francisco e a questão do aborto



O dia 8 de dezembro de 2015, data em que se completa 50 anos de encerramento do Concílio Vaticano II, marca o início do jubileu extraordinário da misericórdia, proclamado pelo Papa Francisco. O Ano Santo, dedicado à misericórdia, inicia-se na Solenidade da Imaculada Conceição (8 de dezembro) e transcorrerá até o dia 20 de novembro de 2016.

O Papa Francisco estabeleceu no dia 1º de setembro 2015 diversas formas em que será possível obter indulgências durante o referido Ano Santo. Entre as novidades, o Papa concede a todos os sacerdotes a faculdade de absolver o pecado do aborto. Repito: a faculdade (possibilidade), não a obrigação.

Essa notícia passou a ser divulgada em diferentes meios de comunicação, de forma distorcida. Destaco alguns títulos de jornais de circulação nacional: “Papa pede que, durante Jubileu da Misericórdia, padres perdoem o aborto”; “Papa comandará perdão em massa por aborto”; “Papa pede a padres para perdoarem aborto durante o Jubileu”; “Papa autoriza padres a perdoarem mulheres que fizeram aborto”; entre outros.

Não é a primeira vez que, maldosamente ou não, uma notícia vinculada ao Papa Francisco é mal interpretada, como se a Igreja estivesse mudando sua doutrina em assuntos relacionados à vida e à família. O aborto está previsto como crime tipificado no Código de Direito Canônico (cânon 1398), onde quem o pratica “incorre em excomunhão latae sententiae”. Ou seja, a excomunhão é automática, sendo reservada a absolvição e a reinserção como membro da Igreja, em regra, somente ao Bispo.

No Ano Santo, o Papa Francisco apenas amplia a todos os padres a possibilidade de remover esta grave pena canônica. Cabendo destacar que os padres não estão obrigados a dar a absolvição, é uma faculdade. Também importante salientar que o Catecismo da Igreja Católica (CIC 1480), estabelece requisitos para se receber o Sacramento da Penitência (confissão), onde o fiel deve reconhecer que cometeu um pecado, estar arrependido, e cumprir a penitência estabelecida pelo confessor. Além disso, importante é o propósito pessoal de mudança de vida, renunciando ao pecado. Algumas pessoas que praticaram o aborto poderão não receber a absolvição, por exemplo, quando se constate a inexistência de arrependimento.
 
O Papa Francisco destacou que “perante a gravidade do pecado, Deus responde com a plenitude do perdão. A misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa.". Isso quer dizer que Deus acolhe o pecador arrependido, embora abomine o pecado. Perdoar o pecador é diferente de aprovar o pecado.

Quando o fiel recebe o perdão pelas faltas cometidas, apaga-se todas as manchas do passado. A vida segue com um novo recomeço, Deus concede uma nova oportunidade de se alcançar a santidade.

Portanto, a misericórdia divina não deve ser entendida como uma permissão tácita para a prática do pecado. Também o fato do Papa estender durante determinado período a possibilidade dos padres absolverem o penitente que praticou o aborto, expandindo e facilitando o acesso à confissão, não quer dizer que o aborto seja aceitável. Pelo contrário, a Igreja defende a fundamental e incondicional defesa pela vida, desde a concepção até a morte natural. Aborto continua sendo crime previsto tanto na legislação canônica, quanto na lei civil.

Jeandré C. Castelon

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Nos Jornais: Umuarama Ilustrado / Gazeta de Toledo

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O casamento, os filhos e o cachorro




Infelizmente, digo com verdadeiro pesar, tenho recebido notícias de muitos casais jovens que, ou estão a ponto de uma separação ou já se separam. É triste, principalmente para as crianças, que normalmente ficam sob os cuidados da mãe e diminuem consideravelmente o contato com o pai. Certo que numa situação de separação dos pais, os filhos são os maiores prejudicados.

É bem verdade que existem os que ainda não tiveram filhos. Há aqueles que terão que disputar a guarda do cachorro, até porque, no Brasil, assim como em outros países (principalmente os mais ricos), nos lares, o número de cães já supera o número de crianças.

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) coletados em 2013, mas somente processados e publicados em 2015, de cada cem famílias, 44 possuem cachorros e somente 36 têm crianças até doze anos de idade. Destaca-se que esta estatística diz respeito apenas aos cães, pois, se considerado os gatos e outros animais a diferença é ainda maior.

A diminuição dos índices de natalidade e o aumento da presença de animais de estimação já são comuns em muitos países, onde as mulheres em busca do sucesso profissional, entre outros fatores, preferem um número menor de filhos, ou até mesmo nenhum.  Outras mulheres, simplesmente temem destruir sua beleza física em razão da maternidade.

Acredito que os filhos, principalmente entre os casais mais jovens, não têm sido motivo suficiente para a manutenção do casamento. Mas é um sinal de que os valores familiares precisam ser resgatados. Não dá mais para viver acreditando que tudo é substituível ou pode ser descartado.

A ausência de filhos, por outro lado, talvez contribua para facilitar a dissolução da união conjugal. É mais fácil descartar apenas o companheiro sem precisar manter a dura tarefa (porém muito gratificante) de permanecer como responsável pela criação dos filhos.

A sociedade precisa de casais modelos, que inclusive gerem filhos, até para a manutenção da espécie humana. Estatísticas apontam que a taxa de natalidade no Brasil vem despencando a cada ano, o que preocupa inclusive os economistas, que calculam prejuízo no crescimento econômico.

A preservação dos casamentos é de extrema importância, não só para as famílias de modo particular, mas também para toda a sociedade. Casais bem resolvidos e felizes gerarão filhos confiantes e igualmente felizes, com melhores condições de superarem as adversidades. Então, para aqueles que ainda não se sintam verdadeiramente capazes de construírem uma família e lutarem a cada dia para a sua manutenção, é melhor que fiquem solteiros, pelo menos durante um período necessário até que atinjam o indispensável amadurecimento.

Seria maravilhoso se todos os casais passassem a consertar o que está roto, compreendendo que muitas coisas só precisam de algum pequeno reparo. Que não há necessidade de descarte ou de substituição. Que a família é para sempre. Que não se destrói uma família para começar outra.

Paciência e carinho são doses necessárias para a manutenção da relação. Também é imprescindível que cada cônjuge lute pela felicidade do outro, certo que assim, ambos serão felizes e diminutas as separações. E principalmente, que se aprimore o desejo mútuo de querer permanecer unido à pessoa amada, haja o que houver. Afinal, amor é decisão!

Jeandré C. Castelon
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Nos Jornais: Gazeta de Toledo / Jornal Hoje 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Família: vida e missão da igreja doméstica


O Papa Francisco, numa catequese sobe o matrimônio em abril de 2015, destacou que Jesus dá início aos seus milagres numa festa de casamento.  Jesus salva a festa! Desta forma Jesus nos ensina que a obra-prima da sociedade é a família: o homem e a mulher que se amam!  Essa é a obra-prima!

Hoje, que cada casal também convide Jesus para participar do seu matrimônio, e que quando surgirem os imprevistos, enfrentando qualquer problema, seja confiante como foi Nossa Senhora, quando disse aos serventes “fazei tudo o que Ele vos disser”. Maria, que é exemplo de fé, sempre confiou, com infinita certeza, que Jesus vem em socorro às dificuldades de cada casal. Quando deixamos Jesus participar da festa, bebemos do melhor vinho, que é incomparável. 

Na primeira Carta aos Coríntios São Paulo compara a Igreja com o corpo humano. Onde Jesus Cristo é a “cabeça”, portanto, é a parte principal. O corpo é a Igreja, onde cada membro, diferente um do outro é responsável por uma função específica. O corpo somos nós. O corpo só funciona bem, quando todos os membros também funcionam bem. Isso quer dizer que a participação de cada membro da comunidade é importante, independente da tarefa que realize.

Ainda, não existe corpo sem cabeça, assim como não existe Igreja, sem Jesus Cristo. A igreja somos todos nós, e mesmo que não nos demos conta a todo instante, Cristo está conosco.

Na Igreja também aprendemos valores que nos acompanharão por toda a vida. Na participação das catequeses, grupos de jovens, pastorais, e tantos outros movimentos, que nos ensinam a ser família, vivenciando experiências junto com outras famílias, que também passam a fazer parte da nossa história.

É importante destacar que a Igreja surgiu em comunidades, que embora pudessem estar inseridas dentro de grades cidades, inicia com pequenos grupos de pessoas, que se reuniam em suas casas, para a proclamação da palavra e para a partilha do pão, entre os que já fossem batizados. Em diversas passagens de suas cartas, São Paulo deixa claro que a Igreja começa dentro das casas. Ainda hoje, em locais onde cristãos são perseguidos (inclusive correndo risco de morte), reúnem-se escondidos dentro de suas casas, ou até mesmos dentro de buracos cavados na terra, mas ainda assim se reúnem.  

Portanto tudo começa dentro de casa. O lar deve ser uma verdadeira Igreja doméstica, que também em nossos dias, precisa ser resgatada. A Igreja doméstica pressupõe a existência de uma família, que mesmo não estando, por motivos diversos, constituída de forma ideal, precisa ser lugar de formação.

É importante que os pais, tios, avós, ou quem forem responsáveis, sejam os primeiros catequistas das crianças. Que caminhem sendo exemplos, mesmo com tantos defeitos, lutem para que cada dia seja melhor que o dia anterior. A caminhada é longa e deve ser constante, mas quando olhamos para trás, percebemos que, talvez distantes ainda daquilo que Deus quer para nós, já não somos mais como éramos antes.

As casas precisam ser lugar de oração, lugar de leitura da Palavra de Deus. Como disse o Papa Francisco: “A fé para ser sã e forte deve alimentar-se constantemente da Palavra de Deus.”.

Na família onde há oração, onde a Palavra de Deus se faz presente, existe paz, existe maior concórdia. E os problemas, quando chegarem serão enfrentados e superados de modo muito especial, pois somos amparados pela Misericórdia de Deus.

Que as crianças em cada lar possam presenciar os pais rezando juntos, ao invés de testemunharem brigas e discórdia.

Que cada lar, possa de fato ser uma verdadeira Igreja doméstica. Que a formação do cristão se inicie dentro de casa, para que quando chegue à Igreja, a formação seja apenas aperfeiçoada e complementada.

Essa responsabilidade cabe aos pais ou responsáveis, que precisam ensinar às crianças o caminho que eles devem seguir, pois assim está escrito do Livro de Provérbios (22, 6): “Ensina à criança o caminho que ela deve seguir; mesmo quando envelhecer, dele não se há de afastar.”.

Acredito que muitos já ouviram uma frase do saudoso São João Paulo II, que disse: “O futuro da humanidade passa pela família!”

Se tivermos uma boa formação que se inicie dentro da família, se de fato nossas casas foram verdadeiras Igrejas Domésticas, teremos melhores cidadãos. Certamente, surgirão muito mais jovens vocacionados ao sacerdócio ou à vida religiosa, bem como teremos melhores cidadãos, profissionais em todas as áreas, inclusive melhores políticos.

Lutemos pelas nossas famílias, independente da condição em que elas estejam! Sejamos cada um de nós fermento, que mesmo proporcionalmente pequenino comparado a todos os outros ingredientes, atinge toda a massa, fazendo crescer de maneira a modificar toda a estrutura. 


Que Deus abençoe a cada um de nós, que Deus abençoe as famílias!

Jeandré C. Castelon



No Jornal: Gazeta de Toledo


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O Jugo

Ser livre não é apenas livrar-se das correntes de alguém, mas viver de uma forma que valorize e reforce a liberdade dos outros.
Nelson Mandela

É sabido que os judeus são acostumados desde a tenra idade a estudar, aos 10 anos já tem decorado a Torá, os cincos primeiros livros da bíblia: Gênesis, Êxodo, Levíticos, Números e Deuteronômio, após essa primeira fase, o Rabino escolhe os que se mostram mais vocacionados, e então esses aprofundam o estudo, e aos catorze decoram o que conhecemos como o antigo testamento, a Bíblia Hebraica.

Em hebraico, a palavra Torá significa ensinamento, instrução. Existe a Torá oral e a Torá escrita, que contém histórias, lições fundamentais e 613 mitzvot[1], além de narrar à história do povo judeu.

Ed René Kivitz em sua série Talmidim, reflexões diárias, disponível no You Tube, série essa que depois virou um livro, explica que esses meninos da segunda fase, nos tempos de Jesus, eram chamados Talmidim, ou seja, seguidores, discípulos, aprendizes do Rabino.

Cada Rabino tem sua interpretação, uma visão, uma compreensão, um entendimento da Torá, dos livros históricos, de sabedoria e todos os profetas, essa interpretação da Torá oral e escrita, isso é chamado, o Jugo do Rabino.

Então veio Jesus. Ora vem Jesus!!!

Inaugurando a proclamação de sua mensagem, o seu ministério, primeiro em um ato extraordinário, ao receber o batismo das águas, também recebe o batismo do amor.

Assim que Jesus foi batizado, saiu da água. Naquele momento o céu se abriu, e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba e pousando sobre ele. Então uma voz dos céus disse:"Este é o meu Filho amado, em quem me agrado".
Mateus 3.16,17

Jesus de Nazaré vai ao deserto para ser tentado, após refutar todas as não tão óbvias sugestões, ordena a retirada do Maligno, e os anjos vem e o servem. Mateus 4.10,11

O Nazareno começa a anunciar sua mensagem e escolhe então os seus Talmidim[2], os 12, em uma franca referência as 12 tribos.  Agora, porém o Rabino é Jesus e o seu jugo é outro, tem autoridade messiânica, é o jugo da liberdade.

Uma liberdade pelo amor¸ essa liberdade que nos revela nossa verdadeira identidade, a de ser amado pelo Pai, esse mesmo amor derramado por Jesus, não se trata de sermos merecedores ou não, mas de ser agraciados, o dom imerecido, através da ida de Jesus para a Cruz e nas suas próprias palavras: “...eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste." João 17.23

O que antes era um jugo insuportável e demasiadamente pesado, com a Nova Aliança, tornou-se leve e suave.

Aqui merece uma ressalva, esse jugo de liberdade, não se trata de uma liberdade com cinismo, mas com responsabilidade, ser transformado por esse amor, renovados em nosso querer, como bem ensina, Paulo, esse gênio da humanidade: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transforme-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Carta aos Cristãos em Roma 12.2


Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.
Jesus de Nazaré


João Carlos Leme da Costa
jclemedacosta.adv@hotmail.com
Talmid de Jesus
Junho de 2015




[1] mitzvot: plural de mitzvá, mandamentos divinos
[2] Talmidim: plural, Talmid: singular




segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Semana Nacional da Família e a participação do leigo na Igreja



A Semana Nacional da Família é celebrada entre os dias 09 e 15 de agosto, em todo o Brasil. A Igreja Católica com a ajuda dos fieis leigos, em cada uma de suas paróquias espalhadas por todo o território nacional promove palestras, encontros e outras atividades de formação, contando com a participação de toda a comunidade. São abordados diferentes temas em cada dia de encontro, mas sempre com o objetivo de fortalecer a família, que é a principal célula da sociedade.

Bastante relevante é destacar que a Igreja clama a participação dos leigos em todas as atividades da Igreja. Desde o Concílio Vaticano II (1962-1965), em muitos documentos a Igreja vem destacando a fundamental importância do envolvimento da comunidade em assuntos que por muito tempo cabiam apenas à autoridade eclesial. Obviamente se mantém a hierarquia dos membros do clero, representada pelos diáconos, presbíteros (padres) e bispos, sujeitos à autoridade máxima do Papa, bispo de Roma.

Aproxima-se também a etapa final do sínodo da família, que se realiza no Vaticano, com a convocação pelo Papa Francisco da XIV Assembleia Geral que terá como tema “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”. 

Dom Bruno Forte, que é secretário especial do sínodo, declarou que a ajuda dos leigos tem sido importante, não só pelos testemunhos dos casais, mas também dos especialistas e convidados. Exorta os leigos a serem verdadeiros protagonistas.

A Igreja, que é a mãe, quer ouvir seus filhos. Milhares de cristãos, espalhados por todo o mundo, foram convidados a responder um questionário com perguntas atinentes à família, que após foram enviados ao Vaticano, para análise.

A Igreja não quer caminhar sozinha. Pelo contrário, deseja que cada fiel seja exemplo de conduta cristã e auxilie no trabalho missionário.

Certamente, durante as celebrações que acontecem em razão da Semana Nacional da Família, os participantes notarão a presença dos leigos, que junto com a Igreja se dispõem a contribuir para o fortalecimento da família, bem como contribuir para com o resgate de valores que devem nortear toda a sociedade.

A família é base da sociedade e o lugar onde as pessoas aprendem pela primeira vez os valores que os guiarão durante toda a vida.”. São João Paulo II



Jeandré C. Castelon



No Jornal: Gazeta de Toledo

domingo, 26 de julho de 2015

Cuidar-se e evitar exageros





“Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma.” (I Coríntios 6, 12)

Este versículo escrito por São Paulo aos Coríntios, no primeiro século da era cristã, resume muito bem o que é realmente ser livre. Poder fazer tudo o que se quer, sem prejudicar o próximo e nem a si mesmo. Até porque, embora autônomo no exercício dos desejos, ninguém fica imune às consequências dos seus atos.

Se o corpo é mal tratado, cedo ou tarde o organismo dará sinais de fragilidade e suplicará por socorro. Também a família e os amigos merecem cuidados. Estreitar laços é importante. Igualmente os excessos precisam ser evitados. É melhor pôr-se vigilante, enquanto há tempo.  

Os afazeres diários também merecem atenção. Não se deve exagerar na carga de trabalho, nem esquivar-se totalmente dele. De que adianta o labor exaustivo dia após dia, ano após ano, se o convívio familiar for prejudicado, se não houver amigos. De que adianta um bom emprego, uma pomposa posição social, se o lar estiver em ruínas. O trabalho é importante, de fato dignifica o homem, no entanto, não pode ser o único sentido da vida.

Existem os que de tanto trabalhar se esquecem de viver. Por outro lado, há também os que não fazem absolutamente nada, apenas vivem de sugar, como faz um parasita, os frutos do trabalho alheio. São Paulo em sua segunda carta aos Tessalonicenses exorta no seguinte: “... soubemos que entre vós há alguns desordeiros, vadios, que só se preocupam em intrometer-se em assuntos alheios. A esses indivíduos ordenamos e exortamos a que se dediquem tranqüilamente ao trabalho para merecerem ganhar o que comer. Vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem” (cap. 3, 11-13). É prejudicial estar em qualquer lado desses opostos extremos.

Preocupar-se com os outros é de suma importância, mas não devemos nos esquecer de nós mesmos. O cuidado pessoal, sem se entregar aos exageros também é uma forma de demonstrar amor pelas pessoas com quem nos importamos, já que uma vida equilibrada e saudável tende a ser mais duradoura, e assim é possível aumentar a quantidade de momentos felizes compartilhados ao lado de indivíduos imprescindíveis.

 Se você ama alguém, cuide de sua saúde, para que possa permanecer mais tempo com a pessoa amada. O desleixo, a falta de zelo com o corpo e com a mente, principalmente quando entregues aos vícios e à promiscuidade, encurtam a vida. Não seja escravo do trabalho ou totalmente avesso a ele. Mesmo que você não tenha ninguém, que viva absolutamente só, cuide-se mesmo assim, afinal é possível ser útil, ajudar pessoas, fazer a diferença na história daqueles que não possuem mais nada, mas que podem oferecer muito, acrescentar valores impagáveis e ajudar-nos a encontrar o sentido da vida.

Encontrar o equilíbrio é um desafio para o homem moderno, que vive submisso e preso a um sistema que esgota as forças, que suprime o precioso e cada vez mais escasso tempo, que cumula stress e priva momentos agradáveis. É preciso ser diligente na busca da felicidade, sendo prudente ao tomar decisões. Afinal de contas: “tudo me é permitido, mas nem tudo convém”.

Jeandré C. Castelon

Imagem: http://migre.me/qVCvS

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