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quarta-feira, 30 de março de 2022

É preciso suportar contrariedades


Longanimidade é a virtude de quem suporta contrariedades em benefício próprio ou de outra pessoa, uma espécie de abnegação. Isso significa que certamente uma pessoa longânime terá de padecer aborrecimentos e manter-se calado. Não se trata de se submeter à injustas agressões sem procurar escapar delas, acredito que tenha mais a ver com não reagir de forma desproporcional, evitar o conflito, evitar a vingança.

 

Eu sei que é difícil sofrer injustiças e é muito mais difícil ter de calar-se quando se está com a razão. Mas é preciso, por mais que estejamos certos, é preciso calar-se. É melhor evitar discussões acaloradas, especialmente aquelas que se originam de forma quase que instantâneas no ordinário da vida, como em uma discussão iniciada após um desentendimento no trânsito.

 

Mesmo que estejamos fazendo a coisa certa, se isso pode de algum modo colocar sua integridade física ou a de outrem em risco é melhor mudar a direção. O outro pode sofrer algum tipo de desequilíbrio, pode estar armado, pode ser apenas um covarde, que de uma forma ou de outra, para sentir-se “honrado” irá utilizar-se de meios injustos para aplacar sua desordenada consciência. Seja por nós ou pelos outros o melhor é não brigar, é não xingar, é não se vingar, o melhor é procurar desvencilhar-se daquela situação, ainda que com um sentimento de desonra, e entregar tudo nas mãos de Deus. Deixar que Deus faça justiça. Rezar por si mesmo e rezar pelo outro também.

 

Todos somos passíveis de sofrer algum tipo de injustiça. O inocente geralmente paga um alto preço quando insiste em disputar contra um insensato, talvez até com a própria vida. É imprescindível procurar evitar situações de conflito, a violência nunca é a resposta. É preciso recuar, deixar de lado o orgulho ferido para se evitar um mal maior. Converter-se ao Evangelho é o melhor remédio para o orgulho ferido.

 

Precisamos ter paciência e lutarmos para bem suportar contrariedades, peçamos a Deus essa graça, sem nunca nos cansarmos de fazer o que é bom. Suportar contrariedades, a toda evidência, é um grande desafio para todos nós.


Jeandré C. Castelon

Casado, pai de dois filhos, membro da Pastoral Familiar, advogado, teólogo e professor.



Imagem: https://url.gratis/uz5ZdD


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Perdoar o pecador é diferente de aprovar o pecado: o Papa Francisco e a questão do aborto



O dia 8 de dezembro de 2015, data em que se completa 50 anos de encerramento do Concílio Vaticano II, marca o início do jubileu extraordinário da misericórdia, proclamado pelo Papa Francisco. O Ano Santo, dedicado à misericórdia, inicia-se na Solenidade da Imaculada Conceição (8 de dezembro) e transcorrerá até o dia 20 de novembro de 2016.

O Papa Francisco estabeleceu no dia 1º de setembro 2015 diversas formas em que será possível obter indulgências durante o referido Ano Santo. Entre as novidades, o Papa concede a todos os sacerdotes a faculdade de absolver o pecado do aborto. Repito: a faculdade (possibilidade), não a obrigação.

Essa notícia passou a ser divulgada em diferentes meios de comunicação, de forma distorcida. Destaco alguns títulos de jornais de circulação nacional: “Papa pede que, durante Jubileu da Misericórdia, padres perdoem o aborto”; “Papa comandará perdão em massa por aborto”; “Papa pede a padres para perdoarem aborto durante o Jubileu”; “Papa autoriza padres a perdoarem mulheres que fizeram aborto”; entre outros.

Não é a primeira vez que, maldosamente ou não, uma notícia vinculada ao Papa Francisco é mal interpretada, como se a Igreja estivesse mudando sua doutrina em assuntos relacionados à vida e à família. O aborto está previsto como crime tipificado no Código de Direito Canônico (cânon 1398), onde quem o pratica “incorre em excomunhão latae sententiae”. Ou seja, a excomunhão é automática, sendo reservada a absolvição e a reinserção como membro da Igreja, em regra, somente ao Bispo.

No Ano Santo, o Papa Francisco apenas amplia a todos os padres a possibilidade de remover esta grave pena canônica. Cabendo destacar que os padres não estão obrigados a dar a absolvição, é uma faculdade. Também importante salientar que o Catecismo da Igreja Católica (CIC 1480), estabelece requisitos para se receber o Sacramento da Penitência (confissão), onde o fiel deve reconhecer que cometeu um pecado, estar arrependido, e cumprir a penitência estabelecida pelo confessor. Além disso, importante é o propósito pessoal de mudança de vida, renunciando ao pecado. Algumas pessoas que praticaram o aborto poderão não receber a absolvição, por exemplo, quando se constate a inexistência de arrependimento.
 
O Papa Francisco destacou que “perante a gravidade do pecado, Deus responde com a plenitude do perdão. A misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa.". Isso quer dizer que Deus acolhe o pecador arrependido, embora abomine o pecado. Perdoar o pecador é diferente de aprovar o pecado.

Quando o fiel recebe o perdão pelas faltas cometidas, apaga-se todas as manchas do passado. A vida segue com um novo recomeço, Deus concede uma nova oportunidade de se alcançar a santidade.

Portanto, a misericórdia divina não deve ser entendida como uma permissão tácita para a prática do pecado. Também o fato do Papa estender durante determinado período a possibilidade dos padres absolverem o penitente que praticou o aborto, expandindo e facilitando o acesso à confissão, não quer dizer que o aborto seja aceitável. Pelo contrário, a Igreja defende a fundamental e incondicional defesa pela vida, desde a concepção até a morte natural. Aborto continua sendo crime previsto tanto na legislação canônica, quanto na lei civil.

Jeandré C. Castelon

Imagem: http://migre.me/rpPuN
Nos Jornais: Umuarama Ilustrado / Gazeta de Toledo

terça-feira, 19 de maio de 2015

A súplica de Maria


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Tempo atrás, uma determinada senhora foi notícia nos jornais porque estava nua tomando banho numa praça.

Mesmo já passado algum tempo, gostaria de falar um pouco sobre essa mulher. O nome dela é Maria (igual, ao nome da mãe de Jesus, igual ao nome da pecadora arrependida, e também de tantas outras mulheres).

Uma vez a encontrei na Igreja perto daquela praça onde ela tomava banho. Eu havia entrado para fazer uma pequena oração. Cheguei meio sem saber o que dizer ao Senhor e me aproximei do Sacrário, quando de súbito comecei a ouvir uma mulher a recitar a oração do Pai-Nosso em voz alta. De vez em quando, uma frase era trocada por outra, de forma desconexa, mais ainda assim era o Pai-Nosso. Da mesma forma foi rezada uma Ave-Maria.

Quando olhei para trás, vi essa senhora de joelhos, orando. Ela começou pedindo perdão a Deus. Entre as frases que pronunciava, assim dizia: “cuida das minhas crianças”; “cuida da minha mãe, do meu pai, dos meus irmãos”; “obrigado pelo pão de cada dia”; “obrigado pelos remédios”; “Jesus pagou pelos nossos pecados na Cruz”; “desculpa por eu não saber rezar direito”; “Nossa Senhora Aparecida cuida de nós”.

Ela disse ainda, para Deus cuidar do seu corpo, que era templo do Espírito Santo. Ela rezou para Jesus e pediu a intercessão da Virgem Maria. Ela pedia para Deus enxugar suas lágrimas. Não obstante, em nenhum momento ela reclamou da vida, em nenhum momento ela se queixou. Pelo contrário, muito agradecia.

Havia descoberto que seu nome é Maria. Provavelmente é moradora de rua, e segundo informações, também se prostitui. Ela se alimentava algumas vezes numa fraternidade chamada “O Caminho”, onde irmãos Franciscanos servem diariamente de 60 a 70 refeições para pessoas carentes.

O nome dela é Maria. Poderia ter sido minha mãe, minha Irmã, minha amiga. E ela, naquele dia, ensinou-me a rezar. E ela, naquele dia, trouxe para mim a presença de Deus que a muito não sentia com tanta intensidade.

Tudo foi “se encaixando” para que eu escutasse a oração de Maria, para que eu a visse de perto, e soubesse seu nome, e para que ela me ensinasse uma importante lição.

Na Igreja me senti como o fariseu que se vangloriava diante de Deus. E Maria na pessoa do publicano, que “batia no peito”, que “nem ousava olhar para o céu” e reconhecia suas faltas, e que saiu do Templo justificado diante de Deus (Lucas 18, 9-14).

Naquele dia tudo foi “por acaso”. Por acaso entrei na igreja. Por acaso Maria depois de mim, também entrou e fez suas preces. Por acaso encontrei na rua um irmão franciscano da referida fraternidade. Por acaso ela passou próximo de nós, e assim soubemos o seu nome.

E depois daquele dia, não mais a vi, não a encontrei na Igreja de novo. Por onde ela anda? Que Deus te proteja Maria, e proteja também tantas outras pessoas que sofrem e precisam de amparo. Agradeço ao Senhor por ter colocado Maria no meu caminho.


Jeandré C. Castelon

Essa é a Maria:
Maria conversando com um irmão franciscano. Ao fundo tomando banho na praça.

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