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sexta-feira, 14 de maio de 2021

Brasil: um país de desiguais


 O município de Cascavel-PR é conhecido pelas ofertas de empego que se sobressaem, isso se deve principalmente pelo grande número de cooperativas instaladas em nossa região, tanto é que há na cidade um expressivo número de trabalhadores estrangeiros – notadamente haitianos e venezuelanos –, assim como muitas pessoas do norte e nordeste do Brasil, que vêm em busca de melhor condição de vida.

 Frequentemente converso com esses trabalhadores, oriundos de outros países e também brasileiros. Habitualmente buscam orientações, não sabem como proceder em determinados casos. Desejam informação. A maioria tem a sua Carteira de Trabalho assinada pela primeira vez.

 Dentre tantos personagens, gostaria de dividir a história de um deles. Uma história real, como a de tantos outros brasileiros. A nossa protagonista será chamada pelo nome de “Maria” (sua verdadeira identidade está preservada).

 Maria chegou à Cascavel vinda do interior do Nordeste meses antes da pandemia do COVID-19, quando estava perto de completar 40 anos de vida. Veio para trabalhar no comércio da cidade. Carteia de Trabalho registrada, remuneração ligeiramente superior ao salário mínimo federal, férias de trinta dias após 12 meses de trabalho, décimo terceiro salário, fundo de garantia por tempo de serviço, pela primeira vez na vida laborou tendo assegurados os direitos mínimos garantidos a qualquer trabalhador formal.

 Na sua cidade natal os empregos surgem de forma sazonal, normalmente durante três ou quatro meses do ano, e o salário, sem qualquer espécie de benefício, fica em torno de R$ 600,00 por mês. Não “existe” direito trabalhista, a pobreza e as dificuldades são gigantes, o patrão, exceto em alguns casos, é somente um pouco menos pobre do que o trabalhador contratado.  

 Quando sua mãe ficou doente, e sob forte angustia e preocupação, não só pela grande distância que as separava, bem como pela inquietante epidemia que aflige todo o país, Maria prontamente vendeu os poucos móveis que conseguiu adquirir, colocou todos os seus bens restantes em bolsas e caixas de papelão, e dentro de um ônibus cruzou o Brasil retornando ao seu lar.

 Maria está muito feliz, a saúde da mãe é estável. Como sempre foi uma excelente trabalhadora, já está empregada. Sua Carteira de Trabalho não será anotada, não terá recolhido o fundo de garantia por tempo de serviço, o décimo terceiro salário, se o patrão puder pagar, ficará limitado a apenas uma pequena gratificação próxima do Natal, não se cogita a hipótese se férias remuneradas, terá um dia de folga a cada duas semanas (o bom é que será aos domingos), trabalhará das 08hs às 19hs, com intervalo de uma hora para almoço, nada receberá a título de horas extras, seu salário mensal é de R$ 800,00. Para os padrões locais, o empego é excelente! Imagine seu pai, sua mãe, seu filho, ou você trabalhando sujeito às mesmas condições.

 Hoje Maria já passou dos 40 anos, quando completar 62 anos, isso se a idade mínima para a aposentadoria da mulher não for ampliada, precisará ter contribuído para a Previdência Social por no mínimo 15 anos (os homens precisam ter no mínimo 20 anos de contribuição e 65 anos de idade), o que possivelmente não irá acontecer. Mesmo que tenha trabalhado desde a infância, o único período em que Maria “existiu” formalmente para o mercado de trabalho, foi durante o tempo em que esteve atuando no comércio de Cascavel. Será que a Maria algum dia conseguirá se aposentar?

 Essa é só mais uma das histórias que se passam em nosso dia a dia, como tantas outras igualmente penosas, sem que tomemos conhecimento. Quem sabe além de mim você também tenha se deparado em algum momento com a Maria, seja no local onde ela trabalhou ou quando caminhava pelas ruas de nossa cidade. 

Jeandré C. Castelon
Advogado, bacharel em Teologia, membro da Pastoral Familiar
 

Imagem: https://bityli.com/NsPtn


sexta-feira, 29 de maio de 2015

“Havia pensado que seria pior”



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Infelizmente o pessimismo tem tomado conta dos brasileiros. Quase que de forma unânime, as pessoas têm se queixado que o presente ano não anda fácil para ninguém. São escândalos de corrupção por todos os lados; o impasse irresolvível entre o governo e professores; aumento dos combustíveis, da energia elétrica, dos alimentos; diminuição da oferta de emprego; demissões.

É sempre verdade que durante períodos de crise, há quem lucre, por mera casualidade ou aproveitando-se do momento. Mas essa não é uma regra, pelo contrário é exceção. Diversos setores caminham claudicantes. A construção civil cada vez mais dá sinais de desaceleração. No comércio as vendas vêem despencando. Empresas reduzindo pela metade o número de seus empregados. O otimismo que outrora imperava entre o povo, estagnou-se nos últimos dias de 2014, quando do “pacotaço” de medidas impopulares impostas pelo governo.

Antes das eleições para presidente e governadores, observava-se ferrenho debate entre os que defendiam a situação frente aos que se manifestavam a favor da oposição. Passados alguns meses, a impopularidade do governo é tamanha que não se vê nas ruas cidadão que tenha a coragem de defender publicamente os atuais governantes.

Espero que o cenário mude, espero verdadeiramente que o país supere o mau momento e imponente se levante. Que as anteriores perspectivas de um futuro mais promissor, finalmente se consolidem. Mas para isso o Brasil precisa mudar. Cada um de nós tem o dever de fazer a sua parte, de lutar contra a corrupção, por menor que seja e em todos os setores da sociedade.

Nosso país precisa urgentemente ser tomado por uma avalanche de moralização. É óbvio que as mudanças deverão ocorrer de forma lenta, e provavelmente nunca se chegará a um grau de completa satisfação. Passou da hora do Brasil ser diferente, das pessoas serem diferentes. Não é possível substituir o povo que aqui está, por outro que eventualmente julguemos ser melhor. Entretanto, é perfeitamente possível que cada um, em seu íntimo, mude seus rumos, tornando-se irrepreensível modelo para os demais.

Até que as circunstancias mudem, mantenho a esperança, “porque, enquanto um homem permanece entre os vivos, há esperança” (Eclesiastes 9,4). Tenho falado em diversas conversas e ocasiões, que espero a chegada do próximo ano, e assim olhando para trás convicto dizer: “havia pensado que seria pior”.


Jeandré C. Castelon

Imagem:https://media.licdn.com/mpr/mpr/p/7/005/06c/007/03abfcb.jpg
Nos Jornais: O Paraná / Gazeta de Toledo

quinta-feira, 26 de março de 2015

Educação, Ética e Família


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O Brasil precisa de pessoas comprometidas com a educação inclusiva e de qualidade, que debatam e apontem possíveis soluções para os desafios que dificultam a formação das crianças em futuros cidadãos, conscientes dos seus deveres e obrigações.

Inimaginável que um país possa caminhar bem, quando a família vai mal, quando não se tem uma educação de qualidade, quando não se observam princípios éticos. E sobre este último ponto destaco o nosso tão conhecido e muitas vezes aclamado método de se obter vantagens em detrimento aos demais: “o jeitinho brasileiro”.

Perdoem-me os contrários, mas o “jeitinho brasileiro” mancha nossa conduta cidadã. Cortar fila; aproveitar-se para conseguir vantagens por ser amigo ou parente de alguém que ocupa cargo importante; usar a carteirinha da faculdade (onde já se formou há muitos anos), para ingressar em eventos obtendo desconto na entrada; sair do restaurante sem pagar a conta; aplicar “golpes”; entre outros exemplos, são atitudes que infelizmente fazem parte da realidade do povo brasileiro. Chega-se ao cúmulo, já que atitudes assim fazem parte do nosso dia a dia, de muitas pessoas aceitarem a corrupção como algo normal e irreversível.

Aproveito para mencionar também as dificuldades que o professor está enfrentando na escolarização dos jovens. Não raras vezes, o educador é vitima do medo, já que não pode exigir o respeito que lhe é devido, ou cobrar uma atitude responsável do aluno, pois poderá colocar sua integridade física em risco. As crianças de forma geral, não estão sendo educadas em casa, e os pais vociferam ao professor, exigindo do já tão desonrado docente, que dê conta de resolver uma gama de problemas que foram ignorados pela família.

Quando a família vai mal, o reflexo é negativo em toda a sociedade. Por isso, a importância de falarmos sobre Educação, Ética e Família e buscarmos soluções possíveis de serem implantadas, beneficiando toda a nação.

Jeandré C. Castelon




Texto originalmente publicado como "Fórum: Educação,Ética e Família", adaptado para este Blog.


Texto publicado no Bolem on line - Pastoral Familiar - CNBB Regional Sul 2 - Ano VII - Abril-2015. Pág. 17

Nos Jornais:

segunda-feira, 9 de março de 2015

O mapa da fome




                                       Segundo recente relatório realizado pela ONU, houve um decréscimo de pessoas que passam fome no mundo. Contudo, o número de famintos ainda é muito alto, e preocupante. Este levantamento aponta que uma em cada nove pessoas no planeta passa fone, pelo menos 805 milhões de seres humanos, o que representa quatro vezes a população do Brasil.

Este número é ainda maior se isolada a estatística sob a África subsaariana (porção de terras localizada ao sul do Deserto do Saara – pejorativamente chamada de “África Negra”), onde o número de subnutridos é de 25% das pessoas, ou seja, uma em cada quatro. Por sua vez, o Continente Asiático, onde se concentra mais de 60% da população mundial, reúne dois terço dos indivíduos subnutridos do mundo.

No Haiti a situação é ainda mais degradante. Metade da população sofre de desnutrição crônica. Muitos ainda consomem uma espécie de bolacha feita de manteiga misturada ao barro (isso mesmo, eles comem terra), como única fonte de alimento. Os haitianos ainda tentam se recuperar do catastrófico terremoto que destruiu o país em 2010. Curioso é que a vizinha República Dominicana, situado na mesma ilha caribenha, é famosa por receber turistas do mundo inteiro, inclusive brasileiros, que se banqueteiam nos luxuosos resorts all inclusive, onde a comida além de extremamente farta e variada, é servida à vontade.

Tenho plena convicção de que a produção de alimentos no mundo é mais do que suficiente para garantir o sustento digno de todas as pessoas. Mas, a distribuição justa dos víveres esbarra na imensa rocha dos interesses econômicos. O alimento só chega às mesas de quem é capaz de garantir lucro. Da mesma forma o acesso à saúde é restrito às pessoas de maior poder aquisitivo.

No Brasil, também não é diferente, embora a mesma estatística apontar que houve diminuição no número de pessoas desnutridas, ainda muitos sofrem pela falta de alimento. Mesmo na região sul e sudeste, onde se concentra maior desenvolvimento social e econômico, milhares ainda não se alimentam de forma digna.

Certo que estamos diante de um grande problema, difícil de ser solucionado. Porém, se pudermos contribuir só um pouquinho, é possível diminuir o sofrimento daqueles que padecem pela falta de pão. Madre Teresa de Calcutá dizia que não se deve preocupar-se com números, que quem for capaz inicie ajudando uma pessoa por vez, começando com quem estiver mais próximo. Dizia também: “se você não puder alimentar cem pessoas, alimente pelo menos uma”.

Dar de comer a quem tem fome, quem sabe seja a maior das obras de caridade. O profeta Isaias anuncia: “se deres do teu pão ao faminto, se alimentares os pobres, tua luz levantar-se-á na escuridão, e tua noite resplandecerá como o dia pleno” (Is 58,10). Se puder ajudar, comece agora. Comece ofertando um quilo de alimento, ou um litro de leite, sem sobra de dúvidas, fará toda a diferença.

Jeandré C. Castelon



Nos Jornais:



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