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segunda-feira, 4 de maio de 2020

Crônica dos “quarenta”



Sempre achei interessante o significado bíblico do número quarenta: tempo suficiente para que algo aconteça. Tenho certeza que mesmo que você não se recorde imediatamente, já ouviu o número quarenta ser pronunciado ao longo da história do povo de Israel em diversos momentos.

Já escrevi noutra oportunidade que, na Bíblia: durante o dilúvio, a chuva caiu por quarenta dias e quarenta noites; Moisés permaneceu com o Senhor, durante quarenta dias e quarenta noites, antes de receber os Dez Mandamentos; o profeta Elias caminhou por quarenta dias e quarenta noites, antes de chegar ao Monte Horeb, a montanha de Deus; quarenta anos o povo hebreu permaneceu no deserto até chegar à Terra Prometida; os ninivitas tiveram quarenta dias para se converterem a Deus, quando do anúncio proferido pelo profeta Jonas; Jesus, após o batismo, permaneceu por quarenta dias no deserto. Estes são apenas alguns exemplos.

Pois é, agora é comigo, cheguei aos quarenta. Sim, quarenta anos de idade, embora tenha a completa convicção de que ainda não alcancei o meu “tempo suficiente”, espero que os meus “quarenta” em sentido bíblico só aconteça após eu superar os cem anos de vida.

Antigamente quem superava os trinta anos já era considerado ancião. Em 1900 a expectativa de vida do brasileiro era de apenas espantosos 33,7 anos, viver além disso era lucro. Popularmente, a letra da divertida e controvertida canção interpretada por Sergio Reis intitulada “Panela Velha”, descreve que a pessoa com mais de trinta anos “é madura” e “estão falando que ela é muito coroa”, porém, corrige-se a composição ao afirmar sabiamente que “a nossa vida começa aos quarenta anos”.

Percebo que já não sou mais como era ates. Olhando no espelho noto uma desagradável assimetria causada pelas inevitáveis linhas do tempo que começam a marcar meu rosto. Sobre os cabelos, prefiro abster-me de comentar este assunto.

Quando mais jovem achava interessante o adágio que diz: “não me arrependo de nada que fiz, só daquelas coisas que deixei de fazer”. Quanta bobagem. Se pudesse teria feito muitas coisas de forma diferente, principalmente quando as minhas escolhas afetaram negativamente outras pessoas. Para tanto, ainda bem que existem: arrependimento e reconciliação.

Tenho fé que cheguei até aqui porque Deus assim permitiu, creio que ele deseja algo de mim que ainda eu não descobri exatamente o que é (de forma alguma quero ser pretensioso, acredito que Deus tem planos especiais para cada um de nós). Penso que ainda falta muito para eu completar a minha missão aqui na terra. Se ao Céu eu fosse chamado neste momento, chegaria lá um tanto quanto contrariado, ainda não chegou a minha hora (por outro lado agradecido de não ter sido enviado para a “repartição inferior”, você sabe à qual me refiro, aquela sob os cuidados do inimigo).

Tenho esposa, filhos, família, amigos. Sou grato por isso. Sei que nem sempre sou a melhor companhia, embora inesgotáveis esforços. Talvez a partir de hoje, somados mais quarenta anos, consiga a extraordinária façanha de gastar o tempo apenas com as coisas que realmente são importantes na vida. Seguirei meu caminho diante de acertos e tropeços, mas sempre com a vontade inequívoca de não cometer antigos erros.

Jeandré C. Castelon




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